Postado por: Bruno Oliveira quinta-feira, 26 de junho de 2014




Essa é mais uma coluna do blog. Tal qual a Brasilivros que conta a história de clássicos literários brasileiros, divididas nas regiões, o Volta ao mundoem 80 livros contará a história de vários livros (clássicos ou não) nos mais diversos países. A ideia é que sejam oitenta livros, como diz o título baseado na grande obra de Júlio Verne, mas vai que passe dessa meta...

Portugal, 2003
EquadorMiguel Sousa Tavares
Equador

Sinopse: O boêmio Luís Bernardo não poderia imaginar que, em dezembro de 1905, um chamado do rei português D. Carlos iria mudar sua vida. Ele foi incumbido de uma missão patriótica: ser governador de São Tomé e Príncipe e se ocupar das relações diplomáticas com o cônsul - David Lloyd Jameson - que a Inglaterra mandara para “vigiar” os portugueses devido à divergência sobre a escravidão. Para fugir de um caso amoroso, ele aceita a proposta. Mas não só é a mudança de continente que atinge Luís Bernardo. É lá, em São Tomé e Príncipe que o incrédulo passa a acreditar no amor. Pena que a sua amada, a única mulher que amaria na vida, seja casada.

Muitos de vocês esperavam um escritor do calibre de Camões, Fernando Pessoa ou até de José Saramago, para representar a terrinha nesta coluna. Mas Miguel representa muito bem o novo cenário da literatura portuguesa, que não foge de suas raízes e tradições, mas que começa a abordar assuntos menos provincianos para começar a explorar um mundo além Portugal. Miguel foi escolhido não apenas por pertencer a essa nova geração, mas por sua principal obra, Equador, representar um dos momentos mais importantes da história portuguesa, misturando realidade e ficção, mostrando principalmente a relação de Portugal com os países potências e emergentes da época. A obra foi resultado de um trabalho de pesquisa histórico bem longo e minucioso. A história se passa no início do século XX, em alguns anos antes da queda da monarquia Portuguesa, mais precisamente em 1905. O narrador e protagonista do romance, Luís Bernardo, é um homem típico português da sociedade cosmopolita da época: 37 anos, entusiasta da arte, cultura e de belas mulheres. Possui boa situação econômica pois dirige um escritório lisboeta de uma companhia de navios (herdada de seu pai), da qual não tem nenhuma motivação verdadeira e é remoído pelo tédio, que só é quebrado em algumas visitas cafetinas a um clube do qual é sócio e através de debates com outros sócios, através de opiniões concisas e pragmáticas.

Se em tudo, a vida de Luís parece ser bem pacata e resolvida, o rumo de algumas de suas opiniões pode desfalecer com tudo isso. Colaborador do jornal "Mundo", alguns de seus artigos sobre a questão colonial atingem pessoas ilustres na sociedade, e associados a sua fama de bom comunicador e fluências nos idiomas francês e inglês, lhe dão uma audiência exclusiva com o então rei de Portugal, Carlos. Em seus artigos, Luis defende uma política colonial moderna, que trouxessem benefícios efetivos para a economia e o comércio, que coincidentemente eram um dos dilemas vividos pela monarquia naquela época. O rei Carlos faz uma proposta indecorosa a Luis, que não teria como recusar (além de ser um pedido direto do rei, Luís teve alguns problemas em Lisboa que poderiam lhe arruinar a vida) e que mudaria drasticamente a vida do jovem empresário. Ele estava escalado para uma missão em uma das colônias portuguesas, São Tomé (a ilha de Príncipe estava inclusa), sob o título de Governador. São Tomé era forte no comércio de cacau e café, o que chamava a atenção de países como a Inglaterra que se dizia anti-escravagista e acusava Portugal de ainda usar escravos nas lavouras de São Tomé. O grande desafio de Luis era demonstrar que não existia escravidão naquele lugar, sem prejudicar sua relação com os senhores de fazenda e a população portuguesa da ilha.

O livro tem um foco histórico, principalmente sobre a questão de colonização e escravidão, e poderia gastar várias palavras para descrever todos os bons e intrigantes acontecimentos do livro (mas prefiro não estragar a surpresa de vocês). Mas mais do que isso, o livro é um romance e possui algumas histórias de amor dentro dele, nem todos um amor passional, mas em alguns casos um amor fraternal, mais especificamente de Luis para João, um dos grandes amigos que Luis teve de deixar pra trás em Portugal. O livro se chama Equador, em referência a linha que atravessa a então colônia de São Tomé. No prefácio do livro, o autor coloca a definição de Equador, e atesta: "Possível contracção da expressão 'é com a dor'.", o que destaca a distância entre Portugal e São Tomé como um dos flagelos a Luís em sua empreitada. No começo de sua experiência na colônia, Luís escreve uma carta (fato bem recorrente durante todo o livro) para seu amigo João, e escreve em um dos trechos:

"Mas hoje, nesta primeira noite, não te quero falar disso. Queria apenas dar-te conta da primeira impressão que sente um inocente português que sai directamente do Chiado para uma aldeia metida dentro da selva e deixada à deriva no meio do Atlântico, à latitude do Equador: sente-se esmagado pela chuva, derretido pelo calor e pela humidade (palavra em português de Portugal), comido vivo pelos mosquitos, espantado pelo medo. E sinto, João, uma imensa e desmedida solidão".

As cartas que troca com João é uma forma de aliviar a sua dor no local. Lá tem que gerenciar conflitos internos, aguentar a pressão política entre Portugal e Inglaterra e suportar as intempéries do Equador. Os obstáculos são impiedosos, mesmo com alguns anos de trabalho, não consegue gerar muitos resultados, e resta a impressão de que ele está ali apenas como bode expiatório. A imagem de Luis é retratada da seguinte forma por um dos jornais mais influentes de Portugal na época, o "O Século":

"...adormecido pelo torpor ou pelo canto de alguma sereia, que não parece capaz de escolher entre a velha e uma nova política, de apaziguar a animosidade dos ingleses nem de ganhar a confiança dos colonos portugueses"

Para demonstrar um pouco da angústia infinita que Luis vai desenvolvendo com o passar do tempo naquele lugar, pego alguns trechos de uma das últimas cartas para João (prometo não estragar o final da história e nem de dar spoilers):

"Acho que em toda a minha vida, nunca precisei tanto de ti e de um amigo ao meu lado. Desculpa implorar-te com esta franqueza, mas acredita que o não faria se não me sentisse no limite do suportável. [...] a ilha já não tem mais segredos nem mistérios, apenas a dor [...] João, por favor, por tudo te peço, se vires alguma hipótese de estragares parte das tuas férias, mesmo com o sacrifício que isso representa, dá um salto até cá ..."

A obra é definitivamente complexa e integrante. Independente do tipo de leitor que você seja, o texto de Miguel Sousa Tavares aborda temas como colonização, escravidão, comércio e economia, diplomacia política, romance, amizade e MUITO sofrimento. É uma visão do colonizador diferente daquela que vemos em livros de História e um relato importante na história de Portugal, ainda que algumas coisas sejam fictícias, vários são reais, e impactaram a sociedade portuguesa tornando-a aquilo que vemos hoje.  Leitura obrigatória para quem gosta de histórias portuguesas. Por fim, a fama do livro traduziu-se na criação de uma série de TV (praticamente uma novela portuguesa) homônima, no ano de 2008, com grande sucesso em Portugal. 
 



{ 1 comentários... leia-os abaixo e comente também! }

  1. Olá querida!

    Muito interessante essa coluna, bem criativa. Interessante também sua escolha de livro pra representar Portugal, eu realmente estava esperando Camões ou João Pessoa. Nunca ouvi falar desse autor, pra ser sincera; mas o livro parece sensacional. Esse novo ângulo na abordagem do colonizador me atraiu, e como amo livros com fundo histórico, esse foi pra minha lista de desejados.

    Beijos
    http://escolhasliterarias.blogspot.com.br/

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