Postado por: Bruno Oliveira sexta-feira, 4 de julho de 2014

Centro-oeste. Norte. Nordeste. Sul. Sudeste. As cinco regiões que formam o nosso país, Brasil. Cada uma com seus costumes, sua cultura, seus monumentos, suas belezas. Tanto naturais, quanto feitas pelo homem. Inclusive a literatura. O Brasil, por ser miscigenado, é riquíssimo e tem um alto valor literário. Cada região com seus fenômenos e histórias que contam sobre suas raças. É isso que essa coluna quer mostrar: o valor da literatura brasileira.
 

Brasilivros. Rio de Janeiro. O Cortiço, de Aluísio de Azevedo.

Livro: O Cortiço
Editora: Paulus
Autor: Aluísio Azevedo
Páginas: 233
Sinopse: A obra busca recriar a realidade dos agrupamentos humanos sujeitos à influência da raça, do meio e do momento histórico. O predomínio dos instintos no comportamento do indivíduo, a força da sensualidade da mulher mestiça, o meio como fator determinante do comportamento são algumas das teses naturalistas defendidas pelo autor ao lado de denúncias sociais. O protagonista do romance é o próprio cortiço, onde se acotovelam lavadeiras, trabalhadores de pedreira, malandros e viúvas pobres.



Não a toa o Cortiço é um dos livros mais presentes nas listas de livros para vestibulares em todo o Brasil, e para entender a importância da obra, é necessário entender o contexto, a começar pelo autor, Aluísio Azevedo, que já antes da obra, já era considerado um dos maiores expoentes do naturalismo, que baseava-se no princípio de conhecer a realidade como ela é, presente no Realismo brasileiro. O livro acabou sendo a cereja no bolo, do naturalismo brasileiro, sendo considerado a obra que melhor apresenta a estética realista-naturalista, já que apresentava cruamente todas as transformações reais que se passavam no Rio de Janeiro, com características próprias do movimento, sem idealizar a realidade. Quase adotando uma perspectiva histórica, o romance nos permite entender o momento pelo qual o país passava – um momento em que a consciência do subdesenvolvimento começava a aflorar e a se tornar elemento inescapável aos romancistas brasileiros. Se anteriormente, o herói era sempre aquele das histórias greco-romanas, alienado de questões sociais e políticas, normalmente de classe superiores (príncipes, semi-deuses, sábios..), o “herói” de Aluísio pertence à classe trabalhadora, João Romão,  que é um indivíduo problemático, que está sempre em busca de algo que lhe falta.


Dentro do romance, podemos destacar duas perspectivas diferentes: uma através de João Romão, dono do cortiço, e de Jerônimo, gerente da pedreira, ambos são imigrantes portugueses. João Romão começa a enriquecer através do trabalho incessante como comerciante, e também através de certos “roubos” que executa em seu estabelecimento e da exploração de Bertoleza, sua escrava e amante, a quem entrega uma falsa carta de alforria. Com o comércio, o aluguel de  alguns cômodos no cortiço e a pedreira, passa a ter uma renda maior e se dedica a negócios maiores, como o mercado financeiro.

Nessa ascensão social, conhece Miranda, um comerciante de tecido e também português, que  passa a morar próximo ao cortiço. Miranda se interessa pelo dinheiro de João e este, por sua vez, se interessa nos contatos da alta sociedade que Miranda possui, e para consolidar essa “sociedade”, planeja-se o casamento entre João Romão e a filha de Miranda, Zulmira. João se livra de Bertoleza, devolvendo-a aos seus antigos donos.  Na mesma temática de ascensão social, entra a perspectiva de Jerônimo, que assume a condição de gerente da pedreira de João Romão e passa a viver no cortiço com a esposa Piedade. No início, é o personagem que mais destoa de todos os outros, pela honestidade e bondade que possui, seu caráter chama a atenção de todo mundo. Só que nessa transição, Jerônimo começa a se alterar por causa do ambiente hostil do cortiço e só piora quando conhece Rita Baiana, e com uma série de acontecimentos despacha sua esposa e passa a morar com Rita. Entra então em um acelerado processo de decadência física e moral, assim como sua esposa, que termina alcoólatra. 

A decadência moral é um ponto mais importante da história, e não acontece apenas com João Romão e Jerônimo, mas com todos os outros personagens, numa mensagem clara de que o ambiente corrompe o mais puro do ser humano e de que todo mundo é podre e possui falha de caráter. O livro possui um conteúdo muito forte, e além de valores sórdidos, há casos de corrupção, roubo, assassinato e muita temática sexual, a descrição do autor para as ações sedutoras e sexuais de alguns personagens é quase explicito. Ainda assim, é um livro muito bem escrito e que causa uma reflexão muito grande sobre a sociedade e os males que provoca à sociedade.


Trechos importantes do livro:
Apesar da rica interação e personificação dos personagens, o grande destaque do livro é o próprio cortiço que é tratado quase que como algo vivo, com emoções e ações. Segue um trecho do livro:
 Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”

Outro acontecimento recorrente no texto é a forma como o autor fala com os moradores do cortiço, quase tratando-os como escória:
“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”



Como o livro trata a realidade como ela é, é natural que haja cenas mais fortes, principalmente com apelo sexual, como no trecho abaixo:
“E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. (…) Leonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido”.

Um ponto importante, é o confronto entre classes e a questão da ascensão social. No trecho abaixo, é mostrado a percepção de Jerônimo com a diferença do estilo de vida e as novas oportunidades:
“Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati, ” pra cortar a friagem.” Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, eviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se de seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar de que guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor…”

Se ainda não esta convencido de que o livro é picante e inapropriado para menores:
“Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita [...] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.”



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