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Volta ao mundo em 80 livros #05 - França, O Pequeno Príncipe

Essa é mais uma coluna do blog. Tal qual a Brasilivros que conta a história de clássicos literários brasileiros, divididas nas regiões, o Volta ao mundo em 80 livros contará a história de vários livros (clássicos ou não) nos mais diversos países. A ideia é que sejam oitenta livros, como diz o título baseado na grande obra de Júlio Verne, mas vai que passe dessa meta...
Antoine de Saint-Exupéry
O Pequeno Príncipe
Sinopse: O Pequeno Príncipe, devolve a cada
um o mistério da infância. De repente retornam os sonhos. Reaparece a lembrança
de questionamentos, desvelam-se incoerências acomodadas, quase já
imperceptíveis na pressa do dia-a-dia. Voltam ao coração escondidas recordações...
O reencontro, o homem-menino.
Resenha:
Esta é uma das obras primas da literatura francesa e mundial, é uma
combinação perfeita de simplicidade e profundidade. Capaz de atingir qualquer
público de qualquer idade, com intensidade e foco diferente, que permite que a
história seja única para cada leitor. Basicamente o livro convida o leitor para
uma viagem de volta a infância, em todo os seus mistérios e simplicidade, com
foco nos valores que realmente importam. O livro é cheio de metáforas e
pensamentos filosóficos, sendo necessária a capacidade de "ler além das
linhas". Logo no começo do texto, o autor nos alerta sobre a necessidade
dessa leitura crítica com a curiosa figura:
“Mostrei minha obra-prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes fazia medo. Responderam-me: <<Por que é que um chapéu faria medo?>>. Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem compreender. Elas têm sempre necessidade de explicações.”
É importante dizer que, pelo menos no início a narrativa é feita
por um piloto de avião que já apresenta suas frustrações da infância, em todo o
livro, não há menção ao nome do aviador ou figuras, o que nos faz entender que
o piloto possa ser o próprio autor. No início da narrativa ele conta da ocasião
em que houve pane no sistema do avião e cai no meio do deserto, solitariamente.
E na desenfreada luta por consertar o avião e sobreviver as intempéries do
deserto, ele conhece o pequeno príncipe, que logo pede-lhe o desenho de um
carneiro. O aviador tenta diversos desenhos mas nenhum satisfaz o príncipe, até
que resolve fazer o seguinte desenho:
E nesse ponto, o aviador identificando sua infância no pequeno
príncipe, começa diálogos sutis, simples mas profundamente belos e robustos. Em
um dos dias de conversa, postaram-se a falar de coisas sérias, o Príncipe
queria saber porque as rosas tem espinhos se não adiantava contra os carneiros,
o aviador ocupado com o trabalho no avião, nem deu bola, e houve a seguinte réplica
do príncipe:
“Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem, apesar de tudo. E não será sério procurar compreender porque perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá importância a guerra dos carneiros e flores? Não será mais importante que as contas do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe em meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o que faz, - isto não tem importância?”
Aos poucos, o pequeno príncipe vai contando de onde veio (um
pequeníssimo planeta em algum lugar do universo), o que faz, o que já viveu, e
aos poucos vai comovendo o piloto e o público. O príncipe vai contando suas
aventuras em outros planetas e cada um trás uma lição de vida espetacular para
o piloto e para os leitores. Outro ponto interessante do livro, é que há
diversas gravuras (aquarelas do próprio autor) que dá um ambiente diferente
para a história e nos ajuda a entender melhor as passagens.
O Pequeno Príncipe é um livro muito bom, curto e de fácil leitura,
permite muitas reflexões sem ter que usar vocabulários rebuscados ou trazer
conteúdos complexos. Consegue fazer o leitor se identificar facilmente com as
conversas, além de possuir frases muito marcantes. Suas palavras possuem um
efeito muito positivo em quem as lê, e não raramente as pessoas releem diversas
vezes essa obra.
Principais citações:
Durante
todo o livro o Pequeno Príncipe fala sobre a insistência dos adultos em ser
pessoas sérias, perdendo todo o sentido de emoções, perdendo a imaginação e as
coisas verdadeiras da vida. Mostra como super valorizamos o dinheiro,
complicamos as coisas simples, nos achamos superiores por não termos tempo para
bobeiras infantis como entender o desenho de um menino e damos tanto peso aos
números que tudo tem que ser contado e recontado.
“- Levantei-me num salto, como se tivesse sido atingido por um raio. Esfreguei bem os olhos. Olhei ao meu redor. E vi aquele homenzinho extraordinário que me observava seriamente. Eis o melhor retrato que, passado algum tempo, consegui fazer dele.” – Aviador, ao encontrar o pequeno príncipe pela primeira vez.
“- É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar - replicou o rei - A autoridade se baseia na razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, todos se rebelarão. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis. “ – Um dos habitantes de um dos planetas visitados pelo príncipe.
“Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê o bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos [...] Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas [...] Se tu vens às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz” – Trechos do diálogo entre a raposa (um dos personagens mais icônicos do livro) e o príncipe.
"Poucas pessoas se ocupam de coisas que não sejam si mesmas.""Só conheço uma liberdade, e essa é a liberdade do pensamento."" É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou" – Algumas reflexões do pequeno príncipe

Volta ao mundo em 80 livros #04 - Portugal, Equador

Essa é mais uma coluna do blog. Tal qual a Brasilivros que
conta a história de clássicos literários brasileiros, divididas nas regiões,
o Volta ao mundoem 80 livros contará a história de vários livros (clássicos ou
não) nos mais diversos países. A ideia é que sejam oitenta livros, como diz o
título baseado na grande obra de Júlio Verne, mas vai que passe dessa meta...
Portugal, 2003
Equador
Sinopse: O boêmio Luís Bernardo não poderia imaginar que, em
dezembro de 1905, um chamado do rei português D. Carlos iria mudar sua vida.
Ele foi incumbido de uma missão patriótica: ser governador de São Tomé e
Príncipe e se ocupar das relações diplomáticas com o cônsul - David Lloyd
Jameson - que a Inglaterra mandara para “vigiar” os portugueses devido à
divergência sobre a escravidão. Para fugir de um caso amoroso, ele aceita a
proposta. Mas não só é a mudança de continente que atinge Luís Bernardo. É lá,
em São Tomé e Príncipe que o incrédulo passa a acreditar no amor. Pena que a
sua amada, a única mulher que amaria na vida, seja casada.
Muitos de vocês esperavam um escritor do calibre de Camões, Fernando
Pessoa ou até de José Saramago, para representar a terrinha nesta
coluna. Mas Miguel representa muito bem o novo cenário da literatura
portuguesa, que não foge de suas raízes e tradições, mas que começa a abordar
assuntos menos provincianos para começar a explorar um mundo além Portugal.
Miguel foi escolhido não apenas por pertencer a essa nova geração, mas por sua
principal obra, Equador, representar um dos momentos mais importantes da
história portuguesa, misturando realidade e ficção, mostrando principalmente a
relação de Portugal com os países potências e emergentes da época. A obra
foi resultado de um trabalho de pesquisa histórico bem longo e minucioso.
A história se passa no início do século XX, em alguns anos antes da queda da
monarquia Portuguesa, mais precisamente em 1905. O narrador e protagonista do romance,
Luís Bernardo, é um homem típico português da sociedade cosmopolita da época:
37 anos, entusiasta da arte, cultura e de belas mulheres. Possui boa situação
econômica pois dirige um escritório lisboeta de
uma companhia de navios (herdada de seu pai), da qual não tem
nenhuma motivação verdadeira e é remoído pelo tédio, que só é quebrado em
algumas visitas cafetinas a um clube do qual é sócio e através de debates com
outros sócios, através de opiniões concisas e pragmáticas.
Se em tudo, a vida de Luís parece ser bem pacata e resolvida, o rumo de
algumas de suas opiniões pode desfalecer com tudo isso. Colaborador do jornal
"Mundo", alguns de seus artigos sobre a questão colonial atingem
pessoas ilustres na sociedade, e associados a sua fama de bom comunicador e
fluências nos idiomas francês e inglês, lhe dão uma audiência exclusiva com o
então rei de Portugal, Carlos. Em seus artigos, Luis defende uma política
colonial moderna, que trouxessem benefícios efetivos para a economia e o
comércio, que coincidentemente eram um dos dilemas vividos pela monarquia
naquela época. O rei Carlos faz uma proposta indecorosa a Luis, que não
teria como recusar (além de ser um pedido direto do rei, Luís teve alguns
problemas em Lisboa que poderiam lhe arruinar a vida) e que mudaria
drasticamente a vida do jovem empresário. Ele estava escalado para uma missão
em uma das colônias portuguesas, São Tomé (a ilha de Príncipe estava inclusa),
sob o título de Governador. São Tomé era forte no comércio de cacau e café, o
que chamava a atenção de países como a Inglaterra que se dizia
anti-escravagista e acusava Portugal de ainda usar escravos nas lavouras de São
Tomé. O grande desafio de Luis era demonstrar que não existia escravidão
naquele lugar, sem prejudicar sua relação com os senhores de fazenda e a
população portuguesa da ilha.
O livro tem um foco histórico, principalmente sobre a questão de
colonização e escravidão, e poderia gastar várias palavras para descrever todos
os bons e intrigantes acontecimentos do livro (mas prefiro não estragar a
surpresa de vocês). Mas mais do que isso, o livro é um romance e possui algumas
histórias de amor dentro dele, nem todos um amor passional, mas em alguns casos
um amor fraternal, mais especificamente de Luis para João, um dos grandes amigos
que Luis teve de deixar pra trás em Portugal. O livro se chama Equador, em
referência a linha que atravessa a então colônia de São Tomé. No prefácio do
livro, o autor coloca a definição de Equador, e atesta: "Possível
contracção da expressão 'é com a dor'.", o que destaca a distância entre
Portugal e São Tomé como um dos flagelos a Luís em sua empreitada. No começo de
sua experiência na colônia, Luís escreve uma carta (fato bem recorrente durante
todo o livro) para seu amigo João, e escreve em um dos trechos:
"Mas hoje, nesta primeira noite, não te quero falar disso. Queria apenas dar-te conta da primeira impressão que sente um inocente português que sai directamente do Chiado para uma aldeia metida dentro da selva e deixada à deriva no meio do Atlântico, à latitude do Equador: sente-se esmagado pela chuva, derretido pelo calor e pela humidade (palavra em português de Portugal), comido vivo pelos mosquitos, espantado pelo medo. E sinto, João, uma imensa e desmedida solidão".
As cartas que troca com João é uma forma de aliviar a sua dor no local.
Lá tem que gerenciar conflitos internos, aguentar a pressão política entre
Portugal e Inglaterra e suportar as intempéries do Equador. Os obstáculos são
impiedosos, mesmo com alguns anos de trabalho, não consegue gerar muitos
resultados, e resta a impressão de que ele está ali apenas como bode
expiatório. A imagem de Luis é retratada da seguinte forma por um dos
jornais mais influentes de Portugal na época, o "O Século":
"...adormecido pelo torpor ou pelo canto de alguma sereia, que não parece capaz de escolher entre a velha e uma nova política, de apaziguar a animosidade dos ingleses nem de ganhar a confiança dos colonos portugueses"
Para demonstrar um pouco da angústia infinita que Luis vai desenvolvendo
com o passar do tempo naquele lugar, pego alguns trechos de uma das últimas
cartas para João (prometo não estragar o final da história e nem de dar
spoilers):
"Acho que em toda a minha vida, nunca precisei tanto de ti e de um amigo ao meu lado. Desculpa implorar-te com esta franqueza, mas acredita que o não faria se não me sentisse no limite do suportável. [...] a ilha já não tem mais segredos nem mistérios, apenas a dor [...] João, por favor, por tudo te peço, se vires alguma hipótese de estragares parte das tuas férias, mesmo com o sacrifício que isso representa, dá um salto até cá ..."
A obra é definitivamente complexa e integrante. Independente do tipo de
leitor que você seja, o texto de Miguel Sousa Tavares aborda temas como
colonização, escravidão, comércio e economia, diplomacia política, romance,
amizade e MUITO sofrimento. É uma visão do colonizador diferente daquela que
vemos em livros de História e um relato importante na história de Portugal,
ainda que algumas coisas sejam fictícias, vários são reais, e impactaram a
sociedade portuguesa tornando-a aquilo que vemos hoje. Leitura
obrigatória para quem gosta de histórias portuguesas. Por fim, a fama do livro
traduziu-se na criação de uma série de TV (praticamente uma novela portuguesa)
homônima, no ano de 2008, com grande sucesso em Portugal.
Volta ao mundo em 80 livros #03 - Moçambique, O Último Voo do Flamingo

Moçambique.
Mia Couto.
O Último Voo do Flamingo.
Sinopse: Mia Couto é um dos escritores africanos de maior destaque da atualidade. O último voo do flamingo, publicado originalmente em 2000, é seu quarto romance, e foi lançado quando Moçambique comemorava 25 anos de independência de Portugal.
Depois de um longo tempo de guerra civil, soldados das Nações Unidas estão em Moçambique para acompanhar o processo de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara, ao sul do país, onde militares da ONU começam a explodir subitamente.
A história desse livro é simples, mas não é ela que o torna uma obra tão importante, mas sim o jeito como é contada. Os acontecimentos se passam em Tizangara, uma pequena vila de Moçambique e tudo começa quando um pênis é encontrado numa estrada. Daí para as outras explosões, que deixam apenas as boinas azuis dos militares da ONU e suas partes íntimas, não demora muito. Com isso, oficiais da Organização das Nações Unidas desembarcam em Tizangara para descobrirem mais sobre essas tais explosões.
Primeiro, um pouquinho de história para sabermos como estava a situação no país. Portugal ia começar a ocupar o território que hoje é Moçambique, mas em 1885 houve a partilha da África - Imperialismo - e então ela se tornou uma ocupação militar, tornando-se depois colônia portuguesa. Em 1964 teve início a Guerra de Independência de Moçambique e dez anos se passaram até que finalmente conseguiu ser independente. Mas agregado à isso, o país entrou numa enorme crise que após muitos anos desembocaria numa guerra civil.
E é aí que história está inserida, um pouco depois da independência, e é um manifesto desse povo cansado de ter que ser submisso. No Imperialismo, por exemplo os brancos, os europeus, consideravam ter um fardo, o de levar a colonização para os outros povos, ditos selvagens... Isso gerava uma insatisfação. A própria terra estava cansada de mostrar essa imagem de fraqueza e subordinação.
As pessoas de Tizangara tentam explicar como podem essas explosões misteriosas, o que dá ao livro um certo tom de misticismo, daquela magia africana e somos apresentados a lendas e feitiços, como os likahos. Além disso, a cada início de capítulo temos um "Dito de Tizangara" ou a fala de algum personagem. Como por exemplo: "O que não pode florir no momento certo acaba explodindo depois."
Cheio de joguetes com as palavras como "pousar e repousar", "dúvidas e dívidas" e outras figuras de linguagem como aliteração e assonância, Mia Couto escreve uma obra simples, mas que carrega muita informação. A linguagem também é extremamente metafórica, assim como a história em si. E aqui temos um exemplo disto: "A morte é uma brevíssima varanda. Dali se espreita o tempo como a águia se debruça no penhasco - em volta todo o espaço se pode converter em esplêndida voação." Outro ponto a se destacar sobre a escrita do livro é o vocabulário. Há várias palavras do português moçambicano e além de dar um toque de particularidade ao livro, dá animação também, parece ser um português mais alegre que o nosso com palavras como: zuezuado, que vem de zuezué, tontura; Tchovar, empurrar; Quizumbar, farejar como uma hiena; Nhenhenhar-se, engasgar-se, entre outras.
Como citei, a história em si é uma bem construída metáfora e confesso que eu não havia notado toda a sua grandeza até ler as palavras do próprio autor ditas na entrega do Prêmio Mário Antônio, em 2001: "O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência - a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos." É como se com esses processos de colonização, os de fora achavam que tinham pleno poder sobre os outros, achando-se superiores, roubando até mesmo suas esperanças. O flamingo, em algumas tradições, é considerado um símbolo de esperança e em O último voo do flamingo, Mia Couto quis contar uma história sobre isto.
O jeito como a história é narrada faz com que qualquer um seja o narrador e Tizangara seja qualquer lugar, em qualquer tempo. É um livro simples, conciso, mas extremamente interessante.
A história desse livro é simples, mas não é ela que o torna uma obra tão importante, mas sim o jeito como é contada. Os acontecimentos se passam em Tizangara, uma pequena vila de Moçambique e tudo começa quando um pênis é encontrado numa estrada. Daí para as outras explosões, que deixam apenas as boinas azuis dos militares da ONU e suas partes íntimas, não demora muito. Com isso, oficiais da Organização das Nações Unidas desembarcam em Tizangara para descobrirem mais sobre essas tais explosões.
Primeiro, um pouquinho de história para sabermos como estava a situação no país. Portugal ia começar a ocupar o território que hoje é Moçambique, mas em 1885 houve a partilha da África - Imperialismo - e então ela se tornou uma ocupação militar, tornando-se depois colônia portuguesa. Em 1964 teve início a Guerra de Independência de Moçambique e dez anos se passaram até que finalmente conseguiu ser independente. Mas agregado à isso, o país entrou numa enorme crise que após muitos anos desembocaria numa guerra civil.
E é aí que história está inserida, um pouco depois da independência, e é um manifesto desse povo cansado de ter que ser submisso. No Imperialismo, por exemplo os brancos, os europeus, consideravam ter um fardo, o de levar a colonização para os outros povos, ditos selvagens... Isso gerava uma insatisfação. A própria terra estava cansada de mostrar essa imagem de fraqueza e subordinação.
As pessoas de Tizangara tentam explicar como podem essas explosões misteriosas, o que dá ao livro um certo tom de misticismo, daquela magia africana e somos apresentados a lendas e feitiços, como os likahos. Além disso, a cada início de capítulo temos um "Dito de Tizangara" ou a fala de algum personagem. Como por exemplo: "O que não pode florir no momento certo acaba explodindo depois."
Cheio de joguetes com as palavras como "pousar e repousar", "dúvidas e dívidas" e outras figuras de linguagem como aliteração e assonância, Mia Couto escreve uma obra simples, mas que carrega muita informação. A linguagem também é extremamente metafórica, assim como a história em si. E aqui temos um exemplo disto: "A morte é uma brevíssima varanda. Dali se espreita o tempo como a águia se debruça no penhasco - em volta todo o espaço se pode converter em esplêndida voação." Outro ponto a se destacar sobre a escrita do livro é o vocabulário. Há várias palavras do português moçambicano e além de dar um toque de particularidade ao livro, dá animação também, parece ser um português mais alegre que o nosso com palavras como: zuezuado, que vem de zuezué, tontura; Tchovar, empurrar; Quizumbar, farejar como uma hiena; Nhenhenhar-se, engasgar-se, entre outras.
Como citei, a história em si é uma bem construída metáfora e confesso que eu não havia notado toda a sua grandeza até ler as palavras do próprio autor ditas na entrega do Prêmio Mário Antônio, em 2001: "O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência - a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos." É como se com esses processos de colonização, os de fora achavam que tinham pleno poder sobre os outros, achando-se superiores, roubando até mesmo suas esperanças. O flamingo, em algumas tradições, é considerado um símbolo de esperança e em O último voo do flamingo, Mia Couto quis contar uma história sobre isto.
O jeito como a história é narrada faz com que qualquer um seja o narrador e Tizangara seja qualquer lugar, em qualquer tempo. É um livro simples, conciso, mas extremamente interessante.
Volta ao mundo em 80 livros #02 - Noruega, A Morte do Pai
Noruega.
Karl Ove Knausgård.
A Morte do Pai.
Sinopse: Uma noite de ano-novo e rebeldia, regada a cervejas vedadas aos menores, um amasso nauseante na primeira namorada, um show fracassado com a banda de punk no shopping center - em 'A morte do pai', Karl Ove Knausgård se concentra em narrar os anos de sua juventude. Ao embarcar numa investigação proustiana e incansável do próprio passado, o narrador busca entender, sobretudo, a trajetória de seu pai, figura distante e insondável que acaba entrando em declínio e levando o núcleo familiar à ruína. Honesto e sensível, Knausgård investiga também o próprio presente - aos 39 anos, pai de três filhos, ele deve se ajustar à rotina em família e desempenhar as tarefas de pai, trocar fraldas e apartar brigas, tudo isso enquanto tenta escrever seu novo romance, numa luta diária.
Faz um tempão que eu não escrevo nessa coluna... A primeira vez foi há um tempão atrás, com Hamlet, da Inglaterra. De lá para cá não li nada além de literatura norte-americana ou talvez britânica também. Até que eu ganhei este maravilhoso livro em uma promoção e então pensei que ele poderia ser mais um dos oitenta livros que pretendo ler de nacionalidades bem distintas, assim digamos.
Esse livro foi, de certa forma, um desafio para mim. Eu nunca havia lido uma biografia - nesse caso autobiografia - e não sabia como seria minha reação ao ler algo do tipo. Tinha a noção de ser uma coisa chata e maçante, mas acabou que o livro me surpreendeu e muito. A história nos é passada com tanta veracidade e sinceridade que simplesmente nos envolve.
Repleto de reflexões, pensamentos e obviamente memórias, mergulhamos numa parte da vida de Karl Ove Knausgård, mais precisamente na sua juventude, passando um pouco pelo seu presente e ancorando num momento crítico de sua vida. Cada parte do livro é mostrada com tantos detalhes e tantas descrições que é como se entrássemos nas memórias do autor. Ou melhor, como se as suas lembranças adquirissem forma e estivéssemos dentro dela. E tudo é tão sinestésico. É como se realmente todos nossos sentidos estivessem trabalhando: nossos olhos veem cada detalhe, cada cor, nossos ouvidos ouvem os sons e até o nosso olfato parece ser ativado.
E é um mergulho infinito, mas agradável. Somos jogados em uma de suas lembranças e então, algum gancho nos leva à outra lembrança e assim infinitamente, como um jogo de espelhos. O livro é de uma vivacidade incrível, principalmente na primeira parte do livro, mais focado nos seus anos jovens, anos rebeldes. Vemos suas primeiras bebedeiras, o reconhecimento de seu corpo, os primeiros amores, a rejeição da sua banda enquanto tocavam num shopping center... Coisas pertinentes da juventude. Seu presente, agora escritor e tendo que conciliar com a "carreira" de pai, suas dúvidas, seus anseios... Tudo é tão real e fugaz. Realmente vivo. Às vezes nos encontramos nele, seja em suas atitudes, ou em seus pensamentos. Nos reconhecemos naqueles fatos cotidianos.
Já na segunda parte do livro, temos uma aura de melancolia. Isto devido à figura de seu pai. Desde o começo do livro vemos o que o pai representa para o menino. Um mistério, um código a ser decifrado. E isso exerce uma força tão magnânima no Karl Ove ainda jovem que ele acaba carregando essa sensação em relação a seu pai pelo resto da vida.
Outra coisa sobre o livro que deve ser ressaltado é que ele nos submerge numa profunda reflexão das coisas. As relações com as pessoas, as coisas simples do cotidiano, a morte... Nós mesmos. Ele conseguiu transcrever tudo isto para o papel. Nossa sensibilidade, nossa fragilidade. Não é a toa que o autor é bestseller na Noruega e se tornou um fenômeno literário internacional. Descrito como portador de uma habilidade proustiana de hipnotizar o leitor. {La Stampa, Itália}
A Morte do Pai, uma obra dramática e intensa, repleta de sentimentos puramente humanos, é o primeiro de seis volumes da série autobiográfica do autor. Depois das pouco mais de quinhentas páginas desse volume, você vai querer mais. A escrita de Karl Ove é tão impactante e verdadeira que você tem essa sensação. E então, encerro aqui com dois pensamentos do autor:
"Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para."
"(...) não era mais que um cano que vaza, um galho que se quebra ao vento, um casaco que escorrega do cabide e cai no chão."
Volta ao mundo em 80 livros #01 - Inglaterra, Hamlet
Essa é mais uma coluna do blog. Tal qual a Brasilivros que conta a história de clássicos literários brasileiros, divididas nas regiões, o Volta ao mundo em 80 livros contará a história de vários livros (clássicos ou não) nos mais diversos países. A ideia é que sejam oitenta livros, como diz o título baseado na grande obra de Júlio Verne, mas vai que passe dessa meta...
William Shakespeare.
Hamlet
Você pode não ter lido essa obra tão importante na literatura, mas certamente você já ouviu a frase "Ser ou não ser, eis a questão" ou talvez algo parecido como "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". Essas duas frases são do livro de Hamlet, conhecido mundialmente, do inglês William Shakespeare.
Hamlet, personagem que dá nome a obra, escrita em forma de teatro, é o príncipe da Dinamarca. É considerado como louco, devido a alguns fatores e acaba cometendo atos que não são muitos corretos. O livro trata sobre traição, morte, incesto, corrupção e moralidade. Aqui, nessa análise da obra - que não chega a ser uma resenha - falarei sobre os crimes cometidos por ele, assumindo uma temática defensora, no meu ponto de vista.
Num dos pontos do livro, há a procura pela razão disso, uns
acreditam que é por causa do amor inicialmente não correspondido por Ofélia,
mas depois é percebido que é pela morte de seu pai, mais precisamente após sua
mãe, Rainha Gertrudes, casar-se com o seu tio agora rei, Cláudio. Uma das
passagens do livro que comprova a falta de sanidade de Hamlet é a que Polônio
conta:
“Vou ser breve. Vosso filho está louco; sim, é o termo mais
acertado; pois em que consiste a loucura, senão em sermos loucos? Que seja.
(...)Que é louco, é certo; é certo e mete pena.”
Talvez esse
seja o ponto de defesa mais importante que possa “anular” os crimes de Hamlet. Primeiramente,
um dos crimes não é considerado verdadeiramente como crime, mas sim como
legítima defesa. Quando o rei manda uma carta para Inglaterra ordenando a morte
de Hamlet, mas ele descobriu antes de chegar lá e colocou os nomes de
Rosencrantz e Guildenstern, fazendo assim com que eles morressem em seu lugar.
Ou seja, legítima defesa antes do acontecimento.
“A vista é pavorosa. Chegamos atrasados; surdos se acham os
ouvidos que
audiência deveriam conceder-nos, a fim de lhes contarmos da
execução de seu mandado: mortos se encontram Rosencrantz e Guildenstern. Quem
há de agradecer-nos?”
Além desse
“crime”, Hamlet também poderia ser condenado pela morte de Polônio e de
Cláudio. A primeira morte foi causada sem saber quem era que estava matando.
Pois Hamlet matou Polônio, pai de Ofélia, achando que o mesmo era o rei. Segue
o fragmento que comprova:
“Adeus, mísero tolo intrometido! Tomei-te por alguém melhor; a sorte te castigou por seres tão solícito.”
Já a de Cláudio é inegável, não há
tanta defesa a não ser loucura e vingança, quando o golpeou com a espada
envenenada. Loucura por que em vários fragmentos, como o já citado
anteriormente, comprovam a loucura do príncipe. Vingança por o tio ter matado o
próprio pai para ficar com o trono e depois com a mãe de Hamlet, Gertrudes.
Esses talvez sejam os motivos dos quais seja plausível a defesa de Hamlet.





