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Brasilivros #03 - O Cortiço
Centro-oeste.
Norte. Nordeste. Sul. Sudeste. As cinco regiões que formam o nosso país,
Brasil. Cada uma com seus costumes, sua cultura, seus monumentos, suas belezas.
Tanto naturais, quanto feitas pelo homem. Inclusive a literatura. O Brasil, por
ser miscigenado, é riquíssimo e tem um alto valor literário. Cada região com
seus fenômenos e histórias que contam sobre suas raças. É isso que essa coluna
quer mostrar: o valor da literatura brasileira.
Brasilivros. Rio de Janeiro. O Cortiço, de
Aluísio de Azevedo.
Livro: O
Cortiço
Editora: Paulus
Autor: Aluísio Azevedo
Páginas: 233
Sinopse: A obra busca recriar a realidade dos agrupamentos humanos sujeitos à influência da raça, do meio e do momento histórico. O predomínio dos instintos no comportamento do indivíduo, a força da sensualidade da mulher mestiça, o meio como fator determinante do comportamento são algumas das teses naturalistas defendidas pelo autor ao lado de denúncias sociais. O protagonista do romance é o próprio cortiço, onde se acotovelam lavadeiras, trabalhadores de pedreira, malandros e viúvas pobres.
Sinopse: A obra busca recriar a realidade dos agrupamentos humanos sujeitos à influência da raça, do meio e do momento histórico. O predomínio dos instintos no comportamento do indivíduo, a força da sensualidade da mulher mestiça, o meio como fator determinante do comportamento são algumas das teses naturalistas defendidas pelo autor ao lado de denúncias sociais. O protagonista do romance é o próprio cortiço, onde se acotovelam lavadeiras, trabalhadores de pedreira, malandros e viúvas pobres.
Não
a toa o Cortiço é um dos livros mais presentes nas listas de livros para
vestibulares em todo o Brasil, e para entender a importância da obra, é
necessário entender o contexto, a começar pelo autor, Aluísio Azevedo, que já
antes da obra, já era considerado um dos maiores expoentes do naturalismo, que
baseava-se no princípio de conhecer a realidade como ela é, presente no
Realismo brasileiro. O livro acabou sendo a cereja no bolo, do naturalismo
brasileiro, sendo considerado a obra que melhor apresenta a estética
realista-naturalista, já que apresentava cruamente todas as transformações
reais que se passavam no Rio de Janeiro, com características próprias do
movimento, sem idealizar a realidade. Quase adotando uma perspectiva histórica,
o romance nos permite entender o momento pelo qual o país passava – um momento
em que a consciência do subdesenvolvimento começava a aflorar e a se tornar
elemento inescapável aos romancistas brasileiros. Se anteriormente, o herói era
sempre aquele das histórias greco-romanas, alienado de questões sociais e
políticas, normalmente de classe superiores (príncipes, semi-deuses, sábios..),
o “herói” de Aluísio pertence à classe trabalhadora, João Romão, que é um indivíduo problemático, que está
sempre em busca de algo que lhe falta.
Dentro
do romance, podemos destacar duas perspectivas diferentes: uma através de João
Romão, dono do cortiço, e de Jerônimo, gerente da pedreira, ambos são
imigrantes portugueses. João Romão começa a enriquecer através do trabalho
incessante como comerciante, e também através de certos “roubos” que executa em
seu estabelecimento e da exploração de Bertoleza, sua escrava e amante, a quem
entrega uma falsa carta de alforria. Com o comércio, o aluguel de alguns cômodos no cortiço e a pedreira, passa
a ter uma renda maior e se dedica a negócios maiores, como o mercado
financeiro.
Nessa
ascensão social, conhece Miranda, um comerciante de tecido e também português,
que passa a morar próximo ao cortiço.
Miranda se interessa pelo dinheiro de João e este, por sua vez, se interessa
nos contatos da alta sociedade que Miranda possui, e para consolidar essa “sociedade”,
planeja-se o casamento entre João Romão e a filha de Miranda, Zulmira. João se
livra de Bertoleza, devolvendo-a aos seus antigos donos. Na mesma
temática de ascensão social, entra a perspectiva de Jerônimo, que assume a
condição de gerente da pedreira de João Romão e passa a viver no cortiço com a
esposa Piedade. No início, é o personagem que mais destoa de todos os outros,
pela honestidade e bondade que possui, seu caráter chama a atenção de todo
mundo. Só que nessa transição, Jerônimo começa a se alterar por causa do
ambiente hostil do cortiço e só piora quando conhece Rita Baiana, e com uma
série de acontecimentos despacha sua esposa e passa a morar com Rita. Entra
então em um acelerado processo de decadência física e moral, assim como sua
esposa, que termina alcoólatra.
A
decadência moral é um ponto mais importante da história, e não acontece apenas
com João Romão e Jerônimo, mas com todos os outros personagens, numa mensagem
clara de que o ambiente corrompe o mais puro do ser humano e de que todo mundo
é podre e possui falha de caráter. O livro possui um conteúdo muito forte, e
além de valores sórdidos, há casos de corrupção, roubo, assassinato e muita
temática sexual, a descrição do autor para as ações sedutoras e sexuais de
alguns personagens é quase explicito. Ainda assim, é um livro muito bem escrito
e que causa uma reflexão muito grande sobre a sociedade e os males que provoca
à sociedade.
Trechos importantes do livro:
Apesar
da rica interação e personificação dos personagens, o grande destaque do livro
é o próprio cortiço que é tratado quase que como algo vivo, com emoções e
ações. Segue um trecho do livro:
“ Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.”
Outro acontecimento recorrente no texto é a forma
como o autor fala com os moradores do cortiço, quase tratando-os como escória:
“E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”
Como o livro trata a realidade como ela é, é natural
que haja cenas mais fortes, principalmente com apelo sexual, como no trecho
abaixo:
“E devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina, enchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha, na sua simplicidade, não podia saber qual era. (…) Leonie fingia prestar-lhe atenção e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo. Depois, como que distraidamente, começou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido”.
Um ponto importante, é o confronto entre classes e a
questão da ascensão social. No trecho abaixo, é mostrado a percepção de
Jerônimo com a diferença do estilo de vida e as novas oportunidades:
“Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati, ” pra cortar a friagem.” Uma transformação lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora, eviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se de seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar de que guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres e volvia-se preguiçoso, resignando-se, vencido, às imposições do sol e do calor…”
Se ainda não esta convencido de que o livro é picante
e inapropriado para menores:
“Ela saltou em meio da roda, com os braços na cintura, rebolando as ilhargas e bamboleando a cabeça, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa sofreguidão de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante; já correndo de barriga empinada; já recuando de braços estendidos, a tremer toda, como se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que se não toma pé e nunca se encontra fundo. Rita [...] tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante.”
Brasilivros #02 - Incidente em Antares
Brasilivros. Sul. Incidente em Antares.
Vida e morte. Uma dualidade que existe há tanto tempo na sociedade... Deve ter vindo junto com a formação dela, e continua presente até hoje. A vida, cheia de esplendores, felicidade e também muitos trancos e barrancos. A morte, supostamente calma, é o fim. O fim de tudo, de sua existência. Em Incidentes em Antares - do nosso grandioso escritor brasileiro, Érico Veríssimo - temos mais que nunca esse grande embate. O livro em si é esteticamente dividido em duas partes. A primeira, nomeada Antares e a segunda, Incidente e eu poderia dizer que a primeira representa a vida e outra, sua inimiga mas companheira, a morte.
Antares. Nossa cidade com nome de estrela às margens de um rio presencia numa sexta-feira 13 de dezembro de 1963, um incidente jamais visto na história de toda humanidade: sete mortos levantam de seus caixões e passam a agirem como vivos; andam, falam e ainda tem memória. Como pano de fundo à isso tudo, vemos Veríssimo construir literalmente toda a cidade de Antares, desde os primórdios, quando chamava-se ainda apenas Povinho da Caveira, passando a ter fortes embates dos Vacarianos e Campolargos, e por aí vai.
Extremamente carregada de política - e quantas coisas já aconteceram no Brasil em relação a isso, não? - esta primeira parte mostra-nos o desenvolvimento da cidade, tanto quanto do país, que passa por enormes mudanças. E isso é tão importante... Sabermos a história do nosso país. Muitas vezes sabemos tanto sobre outros locais, mas desconhecemos nossa própria pátria.
A obra trata de guerras acontecidas entre antes de 1832, até a própria 1963, ano do incidente, como a guerra do Brasil e Argentina pela chamada Banda Oriental, além também da Guerra dos Farrapos, contra o governo imperial e guerras civis ou contra o Paraguai. Como já citado anteriormente, a política é uma figurinha carimbada - e bem repetida - neste álbum. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, Juscelino Kubitschek, com seus cinquenta anos de progresso em cinco e Jânio Quadros, com sua vassoura varrendo a bandalheira na política, foram discutidos com ardor na obra, tanto quanto suas gestões e feitos. O Estado Novo, a criação de Brasília, renúncias e suicídios... Um período que poderia se chamar de conturbado.
Ainda empenhado num cunho político, temos também outro grande duelo - não tão grande quanto o citado no início - dos de esquerda e os de direita, que incluíam comunistas, fascistas, trotskistas, entre outros. E toda a primeira parte pode ser considerada de enorme valor histórico, já que narra uma boa parte de nossa história.
E é na segunda parte, no Incidente, que temos mais literatura que história - a parte que eu mais gostei, confesso. Depois de uma greve geral, onde até os coveiros se recusavam a trabalhar, sete defuntos tiveram que permanecer fora do cemitério. Isto poderia parecer até normal, se não fosse um pequeno detalhe: os mortos no dia seguinte, ressuscitaram. Sem nenhuma explicação.
Como o próprio defunto, Cícero Branco, dissera em plena praça pública, aquilo tudo era um baile de máscaras. Pessoas que no cortejo fúnebre de seu ente querido tinham máscara de sofrimento, em casa brigavam para dividirem a herança. Pessoas que por baixo dos panos faziam as mais diversas falcatruas ou deslealdades - como adultérios e outros crimes - vestiam máscaras de puritanos em frente à sociedade. E até hoje é assim. O baile não acaba e nunca acabará. É infinito.
Com grandes questionamentos sobre a vida - quem é que nunca questionou alguma coisa? - a segunda parte é cheia de filosofias, diversos pontos de vida sobre as mais diversas perguntas da vida, algumas sem nenhuma resposta. Érico consegue num livro unir a História, com suas reviravoltas e revoltas, com a vida e consequente a morte, dois pontos crucias e inevitáveis da estadia na Terra, também com suas voltas. E acerca da finitude humana, uma frase resume tudo: Você já pensou como nossa vida seria barata e sem sentido se a gente soubesse que não ia morrer nunca? Quando muito moço, eu me sentia como uma personagem que tinha entrado por engano numa peça a cujo elenco não pertencia.
Mas pelo contrário, estamos sim neste elenco, e devemos aproveitar este grandioso palco para fazer nosso papel valer a pena.
Brasilivros #01 - Vidas Secas
O que é isso? Uma nova coluna do blog. Saiba mais sobre ela nesse link.
Nordeste. Vidas Secas.
Ano de tão grande importância no cenário artístico, comemoramos centenários de vários grandes personagens da cultura brasileira. Luiz Gonzaga, na sua música, bem nordestina e típica da região. E na literatura, três grande nomes: Jorge Amado, escritor de vários livros como Capitães de Areia, Tieta do agreste; Carlos Drummond de Andrade, grande poeta e cronista, que se estivesse vivo, completaria 110 anos; E então, Graciliano Ramos, grande representador do regionalismo.
120 anos. Seria essa a idade desse grande autor alagoano, por muitos considerado o romancista que melhor soube exprimir a dura realidade dos habitantes do nordeste. Publicou seu primeiro livro, chamado de Caetés, em 1933. Logo depois, no ano seguinte, publicou São Bernardo, e então Vidas Secas, em 1938. Vidas Secas foi talvez o melhor da literatura regionalista do Brasil, que tinha sua alta por volta de 1930. Como marco desse período, fala-se muito em seca, migração, problemas com a aridez do solo que envolve o nordeste e de uma maneira geral, o Brasil. E é isso que o enredo de Vidas Secas mostra.
A história conta, em terceira pessoa, a situação dramática das pessoas que vivem no sertão, especialmente Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia. Eles são nada mais que um bando de retirantes, com suas vidas secas tal como o solo em que pisam, que buscam sempre por trabalho, comida, abrigo, sobrevivência.
Graciliano retrata todo esse drama explicando bem todos os aspectos do cenário. Há elementos e trejeitos bem nordestinos, como as plantações xerófilas que por lá existem: mandacarus, xiquexiques, juazeiros ou como as alpercatas e seu aió, espécie de bolsa. Mas, mesmo com todas as dificuldades encontradas no caminho por eles, ainda há uma ponta de esperança; uma luz no fim do túnel que aponte que tudo aquilo pode mudar para melhor.
Fabiano, um dos personagens principais do livro, considera-se um bicho, não um homem. Um cabra. Ele se achava capaz de sobreviver naquelas condições secas e áridas do sertão e da caatinga, além de que não nascera para falar pomposamente, coisa que ele achava até desnecessária, pois deveria lutar com as coisas e não focar nos livros que diziam sobre as coisas, até por que, tinha exemplos de pessoas que se ligavam de mais aos livros e não se deram tão bem. Mesmo assim, desejava aos filhos a curiosidade e a leitura, se não fossem cercados pela miséria e a seca.
Sinhá Vitória, por sua vez, mantinha as esperanças que o marido criava - de algo poderia ser melhor algum dia - e desejava ardentemente uma cama, já que a capa feita de taipa deles, já não era tão boa. Boa de contas, era um alívio para Fabiano, que ajudava-a já que era considerado bruto.
Baleia, é outro personagem importante. Na verdade, ela que originou o livro. Inicialmente, Graciliano escreveu apenas um conto sobre uma cadela e assim, foi constituindo-se a família e todo o cenário, como pode ser visto a seguir.
"Em 1937 escrevi algumas linhas sobre a morte de uma cachorra [...]. Dediquei em seguida várias páginas aos donos do animal. Essas coisas foram vendidas em retalhos, a jornais e revistas. E como José Olímpio me pedisse um livro para o começo do ano passado, arranjei outras narrações, que tanto podem ser contos como capítulos de romance. Assim nasceram Fabiano, a mulher, os dois filhos e a cachorra Baleia [...]” (RAMOS, Graciliano; Linhas Tortas; 1962).
Portanto, Vidas Secas é uma antologia de contos, juntas no mesmo livro, por isso pode ser considerado um "romance desmontável", pois, podem ler os treze capítulos em qualquer ordem - apenas Mudança, o primeiro e Fuga, o último, devem ser lidos nessa ordem definida. Até por que, os contos do livro, não foram escritos na cronologia que está posta no livro. O que reforça essa independência dos textos, é que os fatos se repetem, são lembrados. Casos que no primeiro capítulo aconteceram, são revividos no terceiro, por isso não há dificuldade de entender a história lida de outro modo. Essa peculiaridade se dá ao fato de que todos os acontecimentos rodeassem os personagens, que eram obrigados de sair de quando em quando, procurando outro lugar.
Lembrando, o romance é de 1930, tempo em que migrações eram bem mais aparentes e funcionou implicitamente como uma crítica social Hoje, há vários lugares nordestinos super desenvolvidos. Isso aqui não é apenas seca, falta d'água ou miséria, caso ainda tenha gente que pense assim. Enfim, viva o Nordeste! Viva o Brasil!







